| Cláudio Abramo
A regra do jogo -- O jornalismo e a ética do marceneiro Organização e edição: Cláudio Weber Abramo Prefácio: Mino Carta Companhia das Letras
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Uma grande tragédia do jornalismo brasileiro é o papel
extremamente grave que desempenham alguns jornalistas irresponsáveis,
em nome de uma independência ilusória, que eles não
têm. Esses jornalistas pesam muito porque veiculam coisas sem verificar,
mentem, fazem afirmações absolutamente gratuitas. E isso
é muito grave num país como o Brasil, em que os jornais não
têm meios de aferir imediatamente se aquilo que está sendo
publicado é verdade ou não; freqiientemente, não se
dão a esse trabalho. Assim, transformam-se em cúmplices desses
jornalistas. Os jornalistas irresponsáveis – que são muitos,
no Brasil, e em grande parte estimulados por alguns jornais – são
hoje responsáveis por uma grande parte da desfiguração
das noções sobre o mundo contemporâneo. Eles são
responsáveis pela falsificação da realidade, colaboram
com isso. São como as novelas de TV, que harmonizam todos os conflitos.
É muito nefasta a influência desses jornalistas, que de
outra forma traba1havam bem – alguns até trabalharam comigo e não
se permitiam certas coisas. Se mandassem uma matéria com algum tipo
de irresponsabilidade, eu logo dizia: “Olha aqui, ô vigarista, você
está pensando o quê? Vai escrever isso no país em que
você mora, não no meu jornal”. Eu não permitiria coisas
como li um dia na matéria de um correspondente, que escreveu que
um banqueiro não identificado 1he teria dito que o Brasil deveria
vender a Petrobrás. O jornal não deve publicar uma coisa
séria como essa, a não ser que se dê o nome do banqueiro.
Sem o nome, a informação não tem valor algum, ainda
mais que a opinião é, na verdade, de quem escreve. No momento
em que o jornal aceita isso, transmite aos repórteres a mensagem
de que eles podem fazer o que quiserem.
O duro é que a irresponsabilidade está passando para a sociedade. Caso se pare o carro numa esquina à procura de uma rua, o sujeito que está atrás já mete a mão na buzina – isto é, todo mundo cobra do seu semelhante, em vez de cobrar do sistema e do regime. É o sistema capitalista que provoca as injustiças, as inadequações, as desigualdades, mas ninguém cobra do sistema e sim do seu semelhante. É a redução clara do nível de combate: o que deveria ser um combate coletivo transforma-se em pequenas refregas individuais. E uma culpa muito grande quanto a isso cabe aos jornalistas irresponsáveis.
Esse tipo de atitude é possível, de um lado, pela permissividade dos jornais; e, de outro, pela criação de um círculo de dependências mútuas. O jornal fica dependente do sujeito e vice-versa. Estabelece-se uma corrente de cumplicidade que não pode mais ser interrompida, o que é extremamente perigoso para o público. Por causa do exemplo desses jornalistas, o jornalismo virou um exercício de ataques gratuitos: o que mais se vê é alguém atacar o outro sem explicar por quê. [...]