|
|
|
Réplica a este artigo, assinada pelas coordenadoras do dicionário Aurélio, foi publicada na edição de 13/2/2000 do caderno "Mais!". Minha tréplica (ver) saiu na edição de 5/3/2000, juntamente com artigo de Paulo Geiger, editor de obras de referência da Nova Fronteira, que edita o Aurélio. Dicionários são livros de grande utilidade. Poucos escritórios seriam completos sem um deles na estante. Versões resumidas são adotadas por todas as escolas. Nenhuma redação os dispensa. Eles devem constituir bom negócio para as editoras que os publicam, notadamente por ocasião de reformas ortográficas, as quais, via de regra, têm em dicionaristas os seus mais entusiásticos promotores - mas cala-te boca, esse é outro assunto. O lançamento recente da terceira edição do Aurélio (Editora Nova Fronteira) fornece uma excelente oportunidade para verificar se é mesmo verdade que os dicionários brasileiros são úteis. O assunto não é de todo irrelevante, dada a grande quantidades de indivíduos que, cegamente, justifica isto ou aquilo porque está dito assim ou assado em algum dicionário. As pessoas consultam esse tipo de obra por uma variedade de motivos (deixemos de lado a busca de etimologias, que tende a se restringir a pouca gente): determinar as acepções de uma palavra; verificar se uma palavra existe; verificar como uma palavra se escreve; buscar um sinônimo. Dessas funções, a última não é cumprida. Ao contrário dos melhores dicionários de outros idiomas, os brasileiros não se propõem a tanto. Sinônimos precisam ser buscados em obras especializadas nisso, que, no entanto, costumam ser limitadíssimas. A penúltima função (grafia de palavras) é, de fato, satisfeita: os dicionários não costumam errar nesse particular, embora por vezes imponham ou recomendem determinadas grafias improváveis, ou que acompanham usos de décadas atrás. Veja aqui exemplos encontrados mais ou menos ao acaso no Aurélio e em outro dicionário que vende bastante, o Michaelis (edição eletrônica). Se na área da grafia, apesar das esquisitices, a coisa anda, decerto o mesmo não se pode dizer quanto à existência de palavras. É claro que esses compêndios consignam "mesa", "cavalo" e demais vocábulos corriqueiros. Basta, porém, sair-se um pouquinho do ramerrame para que a consulta resulte inútil. Veja exemplos aqui. No caso da nova edição do Aurélio, cumpre ainda observar a publicidade propositalmente dúbia, que junta na mesma frase que o dicionário conteria "450 mil verbetes, definições e locuções" quando, na verdade, o número de verbetes não chega perto disso. Acresce que se engordou a lista de verbetes (e não de variantes, como seria correto) com uma relação interminável de grafias lusitanas: "dialecto", "facto", "electrão" etc. Nunca se esquecendo daquelas palavras (em geral proparoxítonas) que, no Brasil, são pronunciadas fechadas e recebem acento circunflexo e que, em Portugal, são pronunciadas abertas e se grafam com acento agudo. Assim, há diversas centenas, quiçá milhares, de verbetes da banda de lá, como "Fenómeno. S.m. Lus. V. fenômeno", seguidos imediatamente abaixo por seus correspondentes das bandas de cá: "Fenômeno..." Em suma, meros macetes mercadológicos para justificar números altissonantes. A despeito de tanto propagandearem excelências, esses dicionários não resistem a uma aquilatação perfunctória. E seus formuladores sequer podem reclamar de enviesamentos ou de se hipervalorizarem detalhes: só as duas orações imediatamente anteriores contêm nada menos que cinco palavras ausentes do Aurélio: "propagandear", "aquilatação", "formulador", "enviesamento" e "hipervalorizar" (estas duas últimas ausentes também de [M]). Como é que se explica que o Aurélio traga "irrealizado" e "irresolúvel", por exemplo, mas não "irresolvido"? Já o Michaelis traz "irrealização", mas não "irrealizado". Por quê? Há inúmeras outras instâncias semelhantes, que demonstram acima de tudo a inconsistência interna dos critérios que governam a consignação de verbetes: não há ordem, não há uma preocupação com a completude, não existe cobertura sistemática. Em particular, palavras formadas por prefixação aparecem ou não aparecem ao acaso, como se viu acima. Não há método. Do outro lado da moeda, certos verbetes têm origem em manifestações de ignorância deslavada, e jamais poderiam ter sido consignados. É o caso, por exemplo, de "randômico", que algum dia um tradutor canhestro replicou do inglês "random" sem saber que existe em português "aleatório", com extensão semântica idêntica (e [M] sequer inclui "aleatoriedade", embora, da mesma forma que [A], consigne "randomização"). O Aurélio é particularmente permissivo na consignação de significados errôneos, que se chocam com a própria etimologia das palavras. É o caso de "incomensurável", dado como significando o mesmo que "imensurável" (o Michaelis subscreve o equívoco como acepção secundária). Um dos principais motes propagandísticos do lançamento do Aurélio foi a adição de termos ligados à informática. Sem opinar sobre a propriedade da inclusão, no idioma, de um montão de palavras esquisitas, cumpre observar que, também nesse território, governa a inconsistência e a desorganização: há "clicar" e "escanear", mas não "retrofitar", "zipar", "rasterizar", "samplear", "atachar"; há centenas de vocábulos ingleses, como "drive", "browser", "download", "upload", "upgrade" etc., mas não "downgrade" e "firewall"; a pretensão de vender dicionários em Portugal soçobra na ausência da acepção de "ratão" como "mouse", este presente. É, porém, no capítulo dos significados que as evidências mais condenam os dicionários. Não precisamos chegar às disciplinas especializadas, em que o panorama é catastrófico (aliás, "catastrofismo" não existe em [A]). Fiquemos em exemplos corriqueiros. Comecemos por "evidência", já que acabamos de usar a palavra. Segundo o Michaelis, trata-se de "qualidade daquilo que é evidente, que é incontestável"; no Aurélio, aduz-se "certeza manifesta". Este último ajunta uma particularização ao terreno da filosofia, afirmando que "evidência" seria "caráter de objeto de conhecimento que não comporta nenhuma dúvida quanto à sua verdade ou falsidade", como se alguma filosofia sustentasse tamanho despropósito. Acontece que evidência não é demonstração, mas uma circunstância fáctica que justifica uma conjectura racional a respeito de algum encadeamento causal que se esteja propondo, sem que se declare certeza. Por exemplo, "há evidências de que Fulano teve influência na decisão do presidente". Não se está afirmando que, indubitavelmente, Fulano influiu na decisão, mas que há indícios (possivelmente equivocados) de que isso tenha ocorrido. No caso desta expressão, sem dúvida a acepção dicionarizada deve algo à notável inépcia do vocabulário jurídico, no qual as evidências de um crime são referidas como "provas". Essa circunstância afeta traduções de forma bastante grave. Uma frase inglesa como "Evidence notwithstanding, he was not proved guilty", ou seja, "Apesar das evidências, não se demonstrou a sua culpa", é emendada por revisores ignorantes (os quais não faltam na praça) em "Apesar das provas, não se provou sua culpa"... Problema essencialmente idêntico ocorre com a palavra "provável", cujo significado primário é apresentado pelos dois dicionários como "Aquilo que se pode provar". Ora, isso é, exatamente, o que algo provável não é. Embora ambos consignem acepções secundárias em que o significado correto aparece, não se justifica a indicação, à testa, de uma acepção que não é empregada por ninguém. Pois é claro que uma frase como "É provável que João seja responsável" jamais será entendida como uma declaração de que o papel de João pode ser demonstrado, mas que existem evidências, perdão, indícios, de que a responsabilidade cabe a ele. Prosseguindo, digamos que o leitor depare no jornal com a frase "o presidente reclamou que a oposição está tentando provocar divisionismo na base parlamentar". Parece claro, não? Conforme os dicionários, não. Pois "divisionismo" quer dizer (Michaelis) "Teoria ou prática de separar as cores em suas componentes e de aplicar estas lado a lado na tela em vez de misturá-las na paleta, de modo que se fundam, a distância, na visão do observador" (o Aurélio traz definição na mesma linha). Não se indica qualquer outra acepção. Nessa toada, é claro que "divisionista" é um fulano que pinta de um certo jeito... Dado o caráter bacharelesco e subalterno da cultura brasileira, e em vista da ignorância generalizada, os dicionários (bem como certos outros compêndios ligados ao uso da língua, cuja crítica deve ficar para outra ocasião) assumem ares de pedra filosofal, tábuas de lei trazidas à terra brasileira por Moisés em pessoa. Mas são apenas opiniões, e opiniões inconfiáveis (esta palavra não comparece em [M]). Segui-los às cegas leva ao abismo. Nisso tudo, cabe mencionar a discrição dos círculos acadêmicos. Busca realizada na biblioteca da Unicamp não revelou a existência de nenhum trabalho sobre o tema. Idem quanto ao Banco de Teses da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Já o banco de dados referente à "Produção USP" limita a referência a dicionários a três resenhas de jornal distribuídas ao longo de alguns anos, todas pela mesma pessoa e todas dedicadas a sucessivos relançamentos do Aurélio. Mas a crítica pública aos dicionários oferecidos à comunidade não seria obrigação de quem é pago para lidar com os assuntos da língua? E como é que nunca formaram uma equipe para fazer um dicionário decente, mesmo que seja para demorar uma década? Ou será que o que existe por aí já está bom demais? |
Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, caderno Mais!, 23/1/2000